05/03/2008
Operações de atacado garantem o primeiro lucro do BPN Brasil.
O Banco Português de Negócios, no Brasil desde 2003, teve no ano passado o primeiro lucro líquido de sua história no país, de R$ 5,5 milhões. A rentabilidade sobre o patrimônio foi de 11%. Em 2006, o banco havia registrado prejuízo de R$ 1,7 milhão. "É um lucro ainda modesto, que deve se consolidar durante 2008", diz o presidente do BPN Brasil, Carlos Catraio.
Segundo ele, o impacto nos resultados do crescimento dos ativos será maior neste ano. A carteira de crédito do BPN Brasil passou de R$ 174 milhões no final de 2006 para R$ 409 milhões em 2007, um aumento de 135%. O crédito gerado foi maior ainda, mas parte dele foi vendido.
A maior parte dos empréstimos é para empresas médias com classificação de risco de crédito "B" pelos critérios do Banco Central, que precisam de provisão de 1% imediata. Por isso, para que cada um deles possa dar lucro, são necessários de dois a três meses, explica Catraio. Além disso, o banco tem preferido, por conservadorismo, não estornar a provisão quando vende crédito com direito de regresso, o que seria permitido pelo Banco Central. "Não tenho pressa em mostrar resultados", afirma Catraio.
O BPN Brasil inicialmente resolveu financiar o consumo. Por isso, comprou a promotora de vendas Creditus. No ano passado, sob o comando de Catraio, deu uma guinada para as atividades de banco de atacado e de investimento. "Hoje, somos um banco de atacado da pequena e média empresa", avalia o executivo. Os resultados positivos da mudança estratégica já vieram no segundo semestre de 2006, quando o banco teve lucro líquido de R$ 4,167 milhões.
Hoje, do total de ativos do BPN Brasil, 90% são empréstimos para empresas. A maior parte dos ativos é Cédulas de Crédito Bancário, repasses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e financiamento do comércio exterior. Os empréstimos são em sua maioria - 70% - para empresas de faturamento de R$ 12 milhões a R$ 360 milhões.
Uma típica operação do BPN é de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões, com prazos acima de 12 meses e esquema de amortização diferenciados, que respeitam a sazonalidade de cada negócio. As garantias são fiduciárias, de recebíveis ou de imóveis. Dos clientes pessoa jurídica, 60% são de fora de São Paulo. "Atuamos em todo o território nacional", diz.
Além dos 40 funcionários em São Paulo, o banco tem 26 "correspondentes" em diversos Estados, define Catraio. São pessoas jurídicas com experiência no mercado financeiro e com 40 anos de idade, no mínimo. O BPN oferece toda a gama de serviços de um banco de atacado, de fusões e aquisições a crédito e operações estruturadas. Os correspondentes têm remuneração variável vinculada ao desempenho do crédito concedido. "Isso incentiva um crescimento saudável da carteira e o comprometimento dos correspondentes com o BPN, que por sua vez controla seus custos fixos", diz.
Para 2008, Catraio pretende reforçar convênio com grandes empresas, por meio dos quais o BPN compra o crédito concedido a um cliente ou fornecedor. Planeja ainda passar a atuar mais fortemente com as agências de crédito à exportação dos países ricos, as chamadas ECAs, do inglês Export Credit Agencies. "Essas ECAs devem se tornar mais competitivas quando o Brasil se tornar grau de investimento e eu quero estar preparado para isso", diz Carlos Catraio.
Como meta para o final do primeiro semestre, o BPN pretende crescer a carteira de crédito até um total de R$ 500 milhões. Para isso, tem caixa - de R$ 99 milhões - e capital suficientes. Mas, para a continuidade da sua expansão no segundo semestre o banco terá de buscar mais capital. O BPN terminou 2007 com patrimônio líquido de R$ 53 milhões e está com índice de capitalização - o chamado Índice de Basiléia , relação entre os ativos ponderados pelo risco e o patrimônio - de 12,4%. O mínimo exigido pelo Banco Central é 11%.
"Posso pedir mais capital para o nosso acionista ou ainda fazer uma emissão de dívida subordinada", conta Catraio. O BPN Brasil responde ao Efisa, o banco de investimento do BPN , do grupo português SLN (Sociedade Lusa de Negócios), que detém 80% do BPN Brasil. Os outros 20% são do Banco Africano de Investimentos (BAI), maior banco privado de Angola que tem entre seus principais acionistas a Sonangol, empresa petrolífera governamental.
Catraio não descarta emitir dívida subordinada - que entra como capital no balanço do banco, ficando subordinada ao pagamento dos demais credores - no mercado interno ou externo ou ainda junto aos organismos multilaterais.
Em setembro do ano passado, o banco recebeu empréstimo da Corporação Interamericana de Investimentos (CII), braço financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de US$ 30 milhões por 30 meses. Já captou US$ 10 milhões diretamente do CII e os outros US$ 20 milhões serão obtidos neste ano, sob o guarda-chuva do BID, que entra como credor oficial de todos os US$ 30 milhões. Como o BID é credor preferencial - o primeiro a receber em caso de moratória -, o risco-Brasil do empréstimo é reduzido.
O BPN também já estreitou relações com a International Finance Corporation (IFC), braço financeiro do Banco Mundial. No ano passado, o banco passou a participar no programa de estímulo ao comércio exterior da IFC, que pode cobrir até 100% do risco comercial do banco tomador do crédito ao comércio exterior - que será repassado a uma pequena e média empresa - e do risco político do país. Agora, Catraio pretende vincular a esse programa o Proex Equalização, de forma a buscar estruturas de financiamento competitivas para a exportação de bens de capital do Brasil para a África de uma forma geral e para Angola, país de parte de seus acionistas, mais especificamente.
Além de crescer seus ativos, o BPN Brasil também elevou significativamente suas captações externas. No final de 2006, o banco tinha linhas de US$ 40 milhões, a maior parte dos próprios acionistas. Hoje, tem US$ 95 milhões de vários bancos e organismos multilaterais. Agora, o BPN vai crescer também suas captações no mercado interno em reais. Em dezembro do ano passado, recebeu a classificação de risco de crédito interna "AA-" da Fitch Ratings, o que vai ampliar o seu potencial de obter recursos junto às fundações no Brasil.
Valor Econômico - Cristiane Perini Lucchesi

"Hoje, somos um banco de atacado da pequena e média
empresa"